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Acordei cedo, como de costume. Era uma bela manhã de segunda-feira. Deveria estar no trabalho em uma hora. Tomei um rápido banho, me arrumei, revisei os documentos que iria precisar, antes de colocá-los na pasta, engoli alguma coisa e saí, rumo ao ponto de ônibus da esquina.
Achava-me privilegiado por dispor de um ponto de ônibus perto de casa, mas ao final deste dia provavelmente mudaria de opinião .
Meu ônibus pareceu demorar bem mais que o habitual. Impaciente, alternei olhares entre o movimento da rua e meu relógio de pulso, tentando acompanhar a hora, que fluía implacavelmente. Passados uns quinze ou vinte minutos, finalmente o avistei. Dei o sinal, agitando uma das mãos no ar.
Entrei depressa, seguido por algumas outras pessoas, mas o motorista ainda inventou de descer, vai saber para quê. Paguei minha passagem, atravessei a borboleta e sentei-me próximo ao trocador. Não gostava de ficar muito na frente. Pouco depois, para minha felicidade, vi pela janelinha o motorista, após trocar algumas palavras com um dos funcionários da companhia, entrar e finalmente o ônibus voltou a circular. Mais e mais pessoas foram entrando. Um homem muito gordo sentou-se na cadeira ao meu lado.
Seguiram-se mais algumas paradas e o ônibus ficou praticamente lotado. Dezenas de pessoas lutavam entre si por espaço nas barras de apoio. Abri a janelinha do meu lado, para ventilar um pouco.
Havia os tipos mais variados: homens engravatados, jovens ouvindo música, outros carregando livros e mochilas, senhoras com crianças de colo, outras com sacolas de compras e até alguns policiais. Enfim, uma pequena representação da sociedade em que vivemos. Eu poderia me encaixar no grupo dos homens engravatados, pois trabalhava em um escritório, para uma respeitada empresa de advocacia.
Minha breve reflexão foi interrompida de maneira repugnante: um sujeito atrás de mim soltou um forte espirro. Senti apenas como uma rápida soprada no pescoço, mas, claro, fiquei com uma sensação enojada. O homem gordo ao lado talvez também tivesse sido alvo, mas ele sequer se moveu – estava cochilando. Pensei em virar para o sujeito e tomar satisfações, mas afastei essa ideia. Não queria criar confusão. Tinha que estar tranquilo para a reunião que teria logo mais com meu chefe. Mas assim que chegasse ao escritório, iria imediatamente ao banheiro.
Finalmente o ônibus encontrou minha rua. O prédio onde funcionava a empresa era o mais alto, destacando-se facilmente. Havia uma parada a poucos metros dele. Levantei-me para começar a ir até a frente do ônibus, ou melhor, para tentar me mover no meio do corredor humano, que àquele momento tomava toda extensão do veículo. Acabei quase dando uma de malabarista, me equilibrando com uma das mãos nas barras, enquanto a outra segurava a pasta, para evitar cair sobre o homem gordo, que praticamente me prendeu na cadeira. Ainda arranjei tempo para dar uma rápida espiada no sujeito do espirro. Ele se ocupava em tentar, sem sucesso, prender um panfleto entre os dois vidros da janelinha. Estava concentrado e aquilo lhe parecia ser muito divertido.
Continuei minha jornada rumo à frente do ônibus. Me segurava como podia, entre um sacolejar e outro. Consegui acompanhar o movimento, mesmo tendo pouca visão das janelas, para saber o momento certo de puxar a cordinha. De súbito, o ônibus deu uma freada brusca; provavelmente por causa de algum motorista imprudente. Fui projetado para frente com força, assim como a maioria dos demais que estavam em pé. Uns caíram sobre os outros, enquanto soltavam gritos de pânico. Esbarrei em várias pessoas, que devagar se recuperavam do susto. O ônibus voltou a circular, quase como se nada tivesse ocorrido. Com o canto do olho, notei que já era hora de pedir a parada, mas pouco depois percebi também que me segurava nas barras com ambas as mãos. Onde estava minha pasta?
Corri os olhos velozmente à minha volta. Certamente caíra na confusão da freada. Neste momento, o ônibus passou em frente à parada onde eu deveria descer. Curiosamente, ninguém mais desceu ou subiu, sequer para me dar mais tempo e condição de fazer a busca. Os demais passageiros pareciam alheios à minha aflição. Havia perdido o horário, a pasta e a parada. O que mais poderia perder? Era melhor nem pensar nisso.
A pasta deve ter deslizado pelo chão até as cadeiras próximas ao motorista, pensei. Apressei-me, pedindo licença e tendo que dar alguns empurrões nas pessoas mais mal educadas. Com esforço, cheguei próximo à porta de descida. Me grudei a uma barra lateral e fui caçando a pasta, dentro do pouco espaço que consegui. Não poderia perder aquela pasta; documentos importantes confiados a mim pelo doutor Haroldo – por anos de serviço – poderiam salvar toda a empresa, que passava por uma repentina crise.
Pelo visto, ainda me restava um pouco de sorte: avistei a pasta embaixo de um conjunto de cadeiras logo atrás da cabine do motorista. Precipitei-me para lá. Pedi licença, gritei, xinguei, quase apanhei dos mais nervosos, mas consegui recuperá-la.
Fui falar com o motorista, pedir para descer. Ele parou, meio a contragosto, bastante à frente do local onde eu deveria estar. Desci, finalmente. Estava muito suado, tenso, nervoso e completamente amarrotado. Já fazia quase meia hora de atraso. Será que o doutor Haroldo entenderia? Tínhamos uma reunião marcada há semanas com executivos suíços interessados em se tornar sócios da empresa, que não vinha passando por bons momentos. Não podia ter me atrasado, não hoje.
Corri pela rua o mais depressa que pude, uns três quarteirões, até chegar à porta do prédio. Já ia abri-la, mas alguém a abriu primeiro por dentro. Dois homens altos, de pele clara, paletó cinza-escuro e expressões nada amigáveis saíram, falando um inglês carregado com alguém que vinha logo atrás; meu chefe, o doutor Haroldo, que argumentava de todos os modos para que eles permanecessem. Quando me viu, exclamou ferozmente, perguntando onde diabos eu havia me metido. Gaguejei, tentando explicar, inutilmente.
Os suíços não pararam. O doutor Haroldo ainda gritou, dizendo que agora seria possível firmar o acordo. Arrancou minha pasta, pegou os documentos e gritou mais uma vez, enquanto os agitava no ar. Os estrangeiros ainda chegaram a parar. Viraram-se. Apenas para negar com a cabeça, enquanto apontavam seriamente para seus relógios de pulso. Depois seguiram até um carro que parecia esperá-los, pois arrancou tão logo os dois entraram . Quando vi que não havia mais jeito, tremi. Por causa de meu atraso perderíamos a empresa, disse doutor Haroldo. Os suíços eram metódicos e diretos, não toleravam atrasos.
Não havia mais muito o que fazer. A empresa iria a falência em no máximo dois dias. Eu estava meio que em estado de choque com toda esta repentina situação e quase não ouvi a bronca do doutor Haroldo, que falava algo sobre a pontualidade suíça, e que me disse ao final que todos perderiam seus empregos, inclusive ele. Em seguida, condoído, entrou, certamente para dar a notícia aos outros funcionários.
Fiquei mais um tempo ali, no meio da calçada, sob o calor da manhã, empapado de suor, com a pasta aberta jogada ao chão, e os papéis a se espalhar pela ação do vento. Estava desempregado, no dia em que tínhamos tudo para nos projetarmos internacionalmente. Como isso foi acontecer?
Lembrei-me da confusão do ônibus, desde o atraso inicial, a freada, a busca pela pasta, a dificuldade de locomoção. Provavelmente não passaria na cabeça de ninguém que estava naquele ônibus hoje que minha vida desmoronaria em menos de uma hora. E o que podia eu alegar? Culpa do motorista? Da sociedade? Ou seria mesmo eu o responsável? Estava aí um bom assunto para pensar no caminho de volta para casa.
Juntei a pasta e caminhei para o ponto de ônibus, olhando para meus sapatos, achando que já tinha perdido tudo que podia. Dessa vez, pelo menos, não estou atrasado, o ônibus podia demorar o quanto quisesse, pensei.
De repente, em plena luz do dia, surgiu da escuridão de um beco um sujeito mal-encarado, com um revólver em punho. Anunciou o assalto. Não sei por que, mas quase não me espantei. Exigiu dinheiro. Não tive opção senão entregar-lhe minha carteira. O pilantra ainda levou minha pasta antes de saltar e sumir por detrás de um muro.
O que estava acontecendo? Eu devia estar no lugar errado na hora certa… E agora? Não me restava mais nada, pensava desesperançoso. Tive de voltar a pé para casa, pois meus últimos trocados estavam na carteira.
Cheguei em casa completamente vazio e sem graça, o oposto de como estava quando saí, algumas horas antes. Jamais imaginei ver minha vida tão inesperadamente revirada por conta de um atraso. Mas é isso mesmo, atrasos não são mais tolerados hoje em dia, onde todos parecemos querer ter a todo custo a tal pontualidade suíça.
Setembro de 2006