ANDARILHO

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Faz três meses que iniciei minha expedição. Minha vida tem sido, desde então, uma grande aventura. Em minhas viagens, procuro novas pessoas, novas amizades.

Hoje cheguei a um vilarejo localizado na orla de uma floresta de pinheiros. Conversei com alguns habitantes, fiz amizade com um ferreiro e lhe pedi para me apresentar o lugar.

Era uma vila humilde. Poucas casas, muitas pessoas nas ruelas, fumaça saindo das chaminés. A monotonia parecia eterna. Fui parado por um grupo de crianças que tinham gostado da minha mochila vermelha, que devia ser uma novidade para eles. Abaixei-me e abri a mochila, onde costumo guardar recordações dos lugares em que já estive. Em meio ao barulho das vozes misturadas dos meninos, tirei uma bola – a bola que Seu Nicolau me dera quando estive em Nova Esperança. Entreguei-a aos garotos, que saíram felizes brincando, exibindo sorrisos nos rostos pálidos. Também me senti bem naquele momento.

À noite, meu amigo ferreiro me levou à única taberna da região. Havia muitas pessoas no estabelecimento. O taberneiro não me pareceu bem-humorado, também achei que não tinha simpatizado comigo. Meu amigo me apresentou a todos, à medida que fui me enturmando no lugar. Contei a meus novos amigos algumas de minhas histórias , enquanto jantávamos um lombo de porco ensopado. Falei dos lugares por onde passei, das pessoas que conheci, dos amigos que fiz. A conversa foi até tarde da noite, e àquela hora eu senti que já conhecia meus companheiros há muito tempo. Então nos despedimos; no dia seguinte eu continuaria minha jornada. Sairia cedo da estalagem onde estava hospedado.

O ferreiro me acompanhou até o albergue. Dei-lhe um forte abraço e agradeci por toda a ajuda que me dera. Estava abrindo a porta de madeira quando ele me entregou uma ferradura. Disse que era a primeira que havia forjado, queria que eu ficasse com ela como sinal de nossa amizade.

Mais tarde, no meu quarto, momentos antes de deixar a vila, olhei a pequena ferradura enferrujada. Aquele objeto representava uma pessoa. Guardei-a em minha mochila.

11 de março de 2004                     

O bolo escritor

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Era um evento literário de grandes proporções. O maior que a cidade já vira, sem dúvida. Acontecia a cada dois anos. E esta edição estava entre as melhores. Grandiosa abertura, dezenas de estandes, espaço interno reformado, além de vários escritores e personalidades consagradas como convidados.

A qualquer bom amante da literatura, como eu, era um verdadeiro banquete. Assim que chegou às minhas mãos o lustroso guia de programação do evento, tratei logo de ir marcando tudo o que poderia me interessar, com uma caneta vermelha.  As grandes palestras e debates só aconteceriam do meio para o fim do evento. Deste modo, passei os primeiros dias explorando a feira de livros, comprando os mais acessíveis e curiosos e conhecendo os lançamentos. Notei, por outro lado, neste ano, uma frequência muito baixa de público, inferior às edições anteriores. Os corredores do centro de convenções estavam quase desertos, e as poucas pessoas que por ali circulavam não pareciam muito interessadas em livros – apenas mais na badalação. Pensei que devia ser por ainda estar no início do evento, que duraria toda aquela semana.

Nos dias seguintes, contudo, não vi muitas mudanças nesse sentido . A frequência aumentou um pouco, mas o interesse pelos livros permanecia o mesmo: apático. Os estandes, apesar das boas promoções, pareciam atrair mais os curiosos, que aparentemente só sabiam bagunçar os livros de lugar.

Até que um dia, quando parei de carro próximo à ala de entrada principal,  um enorme burburinho chamou minha atenção. Virei o rosto e vi uma enorme fila, que saía pelo portão duplo de entrada e se estendia até perto do estacionamento, mesmo sob o escaldante sol do meio-dia. Na hora, me assustei. O que seria aquilo? O que fez aquelas todas aquelas pessoas chegarem ali tão de repente? Há pouco pareciam praticamente indeferentes à feira…

Será que eu tinha me esquecido de alguma palestra importante? Seria aquele escritor húngaro que tanto esperava para conhecer? Chequei de imediato o folheto de programação, que trazia à mão. Não, não havia nada de grande destaque hoje, apenas algumas programações locais.

Procurei me aproximar, e percebi que a fila era maior do que imaginei. Temi que realmente fosse algo bastante sério, que por algum imprevisto tinha sido antecipado. Ora, mas como tanta gente ficou sabendo?  Era óbvio que as grandes palestras atrairiam um grande público  – claro, talvez não exatamente um público seleto, pois provavelmente a maioria seria de curiosos. Evidente que mesmo assim sempre havia os buscavam mais, um contato com seu ídolo, uma palavra orientadora, uma luz no fim do túnel. Mas, a julgar pelo tamanho da fila, comecei a rever meus conceitos. Havia todo tipo de gente ali: jovens, crianças, senhores, engravatados, e todos pareciam muito ansiosos para o que estava por vir. Seria possível que tantas pessoas ainda se importavam com literatura? Era interessante pensar deste modo, principalmente quando todas as estatísticas apontam nosso país como um dos mais baixos no que diz respeito a gosto pela leitura. Aparentemente, as coisas estavam mudando.

Após essa breve reflexão, percebi que não poderia ficar de fora daquilo. Mas antes de me juntar à fila, quis saber exatamente de quem seria a palestra. Como não havia nenhum receptivo à vista, tive uma ideia para apurar mais sobre aquilo de maneira rápida, e, evitando a fila, dei uma volta pelas laterais do prédio e entrei por uma outra entrada, mais discreta, onde aliás era também era a saída oficial. Lá dentro, certo de que algum grande escritor poderia ou estaria se preparando para palestrar naquele momento, perguntei a um dos receptivos quem era o convidado da hora, o motivo da lotação na outra entrada. Quando ele respondeu, tive meio que um misto de riso e choro, ficando estático por instantes, mas tudo fez sentido.

Era um bolo.

Uma homenagem ao aniversário da cidade.

E foi então que, mais alguns metros a frente de onde eu estava, no centro de um vasto saguão, o vi: um enorme bolo, daqueles retangulares, que se estendia por toda a extensão de uma mesa igualmente vasta, colocada pomposamente sobre um felpudo tapete vermelho.  Um enorme contigente se aglomerava em volta, e ali parecia ter início a fila que eu vira lá fora.

Não era o escritor húngaro. Não era qualquer personalidade. Era o bolo. Vi as pessoas pacientemente esperando para receber fatias dele, cobertas de um glacê tão branco quanto eu ficara ao descobrir o ilustre convidado.

E até o final do evento, não me lembro de ter visto público ou fila maior que aquela. Daqueles que tinham vindo prestigiar e pegar um “autógrafo” da sensação da feira, o bolo escritor.

Abril de 2010/Agosto de 2011

Hora Certa

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Acordei cedo, como de costume. Era uma bela manhã de segunda-feira. Deveria estar no trabalho em uma hora. Tomei um rápido banho, me arrumei, revisei os documentos que iria precisar, antes de colocá-los na pasta, engoli alguma coisa e saí, rumo ao ponto de ônibus da esquina.

Achava-me privilegiado por dispor de um ponto de ônibus perto de casa, mas ao final deste dia provavelmente mudaria de opinião .

Meu ônibus pareceu demorar bem mais que o habitual. Impaciente, alternei olhares entre o movimento da rua e meu relógio de pulso, tentando acompanhar a hora, que fluía implacavelmente. Passados uns quinze ou vinte minutos, finalmente o avistei. Dei o sinal, agitando uma das mãos no ar.

Entrei depressa, seguido por algumas outras pessoas, mas o motorista ainda inventou de descer, vai saber para quê. Paguei minha passagem, atravessei a borboleta e sentei-me próximo ao trocador. Não gostava de ficar muito na frente. Pouco depois, para minha felicidade, vi pela janelinha o motorista, após trocar algumas palavras com um dos funcionários da companhia, entrar e finalmente o ônibus voltou a circular. Mais e mais pessoas foram entrando. Um homem muito gordo sentou-se na cadeira ao meu lado.

Seguiram-se mais algumas paradas e o ônibus ficou praticamente lotado. Dezenas de pessoas lutavam entre si por espaço nas barras de apoio. Abri a janelinha do meu lado, para ventilar um pouco.

Havia os tipos mais variados: homens engravatados, jovens ouvindo música, outros carregando livros e mochilas, senhoras com crianças de colo, outras com sacolas de compras e até alguns policiais. Enfim, uma pequena representação da sociedade em que vivemos. Eu poderia me encaixar no grupo dos homens engravatados, pois trabalhava em um escritório, para uma respeitada empresa de advocacia.

Minha breve reflexão foi interrompida de maneira repugnante: um sujeito atrás de mim soltou um forte espirro. Senti apenas como uma rápida soprada no pescoço, mas, claro, fiquei com uma sensação enojada. O homem gordo ao lado talvez também tivesse sido alvo, mas ele sequer se moveu – estava cochilando. Pensei em virar para o sujeito e tomar satisfações, mas afastei essa ideia. Não queria criar confusão. Tinha que estar tranquilo para a reunião que teria logo mais com meu chefe. Mas assim que chegasse ao escritório, iria imediatamente ao banheiro.

Finalmente o ônibus encontrou minha rua. O prédio onde funcionava a empresa era o mais alto, destacando-se facilmente. Havia uma parada a poucos metros dele. Levantei-me para começar a ir até a frente do ônibus, ou melhor, para tentar me mover no meio do corredor humano, que àquele momento tomava toda extensão do veículo. Acabei quase dando uma de malabarista, me equilibrando com uma das mãos nas barras, enquanto a outra segurava a pasta, para evitar cair sobre o homem gordo, que praticamente me prendeu na cadeira. Ainda arranjei tempo para dar uma rápida espiada no sujeito do espirro. Ele se ocupava em tentar, sem sucesso, prender um panfleto entre os dois vidros da janelinha. Estava concentrado e aquilo lhe parecia ser muito divertido.

Continuei minha jornada rumo à frente do ônibus. Me segurava como podia, entre um sacolejar e outro. Consegui acompanhar o movimento, mesmo tendo pouca visão das janelas, para saber o momento certo de puxar a cordinha. De súbito, o ônibus deu uma freada brusca; provavelmente por causa de algum motorista imprudente. Fui projetado para frente com força, assim como a maioria dos demais que estavam em pé. Uns caíram sobre os outros, enquanto soltavam gritos de pânico. Esbarrei em várias pessoas, que devagar se recuperavam do susto. O ônibus voltou a circular, quase como se nada tivesse ocorrido. Com o canto do olho, notei que já era hora de pedir a parada, mas pouco depois percebi também que me segurava nas barras com ambas as mãos. Onde estava minha pasta?

Corri os olhos velozmente à minha volta. Certamente caíra na confusão da freada. Neste momento, o ônibus passou em frente à parada onde eu deveria descer. Curiosamente, ninguém mais desceu ou subiu, sequer para me dar mais tempo e condição de fazer a busca. Os demais passageiros pareciam alheios à minha aflição. Havia perdido o horário, a pasta e a parada. O que mais poderia perder? Era melhor nem pensar nisso.

A pasta deve ter deslizado pelo chão até as cadeiras próximas ao motorista, pensei. Apressei-me, pedindo licença e tendo que dar alguns empurrões nas pessoas mais mal educadas. Com esforço, cheguei próximo à porta de descida. Me grudei a uma barra lateral e fui caçando a pasta, dentro do pouco espaço que consegui. Não poderia perder aquela pasta; documentos importantes confiados a mim pelo doutor Haroldo – por anos de serviço – poderiam salvar toda a empresa, que passava por uma repentina crise.

Pelo visto, ainda me restava um pouco de sorte: avistei a pasta embaixo de um conjunto de cadeiras logo atrás da cabine do motorista. Precipitei-me para lá. Pedi licença, gritei, xinguei, quase apanhei dos mais nervosos, mas consegui recuperá-la.

Fui falar com o motorista, pedir para descer. Ele parou, meio a contragosto, bastante à frente do local onde eu deveria estar. Desci, finalmente. Estava muito suado, tenso, nervoso e completamente amarrotado. Já fazia quase meia hora de atraso. Será que o doutor Haroldo entenderia? Tínhamos uma reunião marcada há semanas com executivos suíços interessados em se tornar sócios da empresa, que não vinha passando por bons momentos. Não podia ter me atrasado, não hoje.

Corri pela rua o mais depressa que pude, uns três quarteirões, até chegar à porta do prédio. Já ia abri-la, mas alguém a abriu primeiro por dentro. Dois homens altos, de pele clara, paletó cinza-escuro e expressões nada amigáveis saíram, falando um inglês carregado com alguém que vinha logo atrás; meu chefe, o doutor Haroldo, que argumentava de todos os modos para que eles permanecessem. Quando me viu, exclamou ferozmente, perguntando onde diabos eu havia me metido. Gaguejei, tentando explicar, inutilmente.

Os suíços não pararam. O doutor Haroldo ainda gritou, dizendo que agora seria possível firmar o acordo. Arrancou minha pasta, pegou os documentos e gritou mais uma vez, enquanto os agitava no ar. Os estrangeiros ainda chegaram a parar. Viraram-se. Apenas para negar com a cabeça, enquanto apontavam seriamente para seus relógios de pulso. Depois seguiram até um carro que parecia esperá-los, pois arrancou tão logo os dois entraram . Quando vi que não havia mais jeito, tremi. Por causa de meu atraso perderíamos a empresa, disse doutor Haroldo. Os suíços eram metódicos e diretos, não toleravam atrasos.

Não havia mais muito o que fazer. A empresa iria a falência em no máximo dois dias. Eu estava meio que em estado de choque com toda esta repentina situação e quase não ouvi a bronca do doutor Haroldo, que falava algo sobre a pontualidade suíça, e que me disse ao final que todos perderiam seus empregos, inclusive ele. Em seguida, condoído, entrou, certamente para dar a notícia aos outros funcionários.

Fiquei mais um tempo ali, no meio da calçada, sob o calor da manhã, empapado de suor, com a pasta aberta jogada ao chão, e os papéis a se espalhar pela ação do vento. Estava desempregado, no dia em que tínhamos tudo para nos projetarmos internacionalmente. Como isso foi acontecer?

Lembrei-me da confusão do ônibus, desde o atraso inicial, a freada, a busca pela pasta, a dificuldade de locomoção. Provavelmente não passaria na cabeça de ninguém que estava naquele ônibus hoje que minha vida desmoronaria em menos de uma hora. E o que podia eu alegar? Culpa do motorista? Da sociedade? Ou seria mesmo eu o responsável? Estava aí um bom assunto para pensar no caminho de volta para casa.

Juntei a pasta e caminhei para o ponto de ônibus, olhando para meus sapatos, achando que já tinha perdido tudo que podia. Dessa vez, pelo menos, não estou atrasado, o ônibus podia demorar o quanto quisesse, pensei.

De repente, em plena luz do dia, surgiu da escuridão de um beco um sujeito mal-encarado, com um revólver em punho. Anunciou o assalto. Não sei por que, mas quase não me espantei. Exigiu dinheiro. Não tive opção senão entregar-lhe minha carteira. O pilantra ainda levou minha pasta antes de saltar e sumir por detrás de um muro.

O que estava acontecendo? Eu devia estar no lugar errado na hora certa… E agora? Não me restava mais nada, pensava desesperançoso. Tive de voltar a pé para casa, pois meus últimos trocados estavam na carteira.

Cheguei em casa completamente vazio e sem graça, o oposto de como estava quando saí, algumas horas antes. Jamais imaginei ver minha vida tão inesperadamente revirada por conta de um atraso. Mas é isso mesmo, atrasos não são mais tolerados hoje em dia, onde todos parecemos querer ter a todo custo a tal pontualidade suíça.

Setembro de 2006

Nova Esperança

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Era uma cidade comum, a pequena Nova Esperança, pelo menos à primeira vista. Nada nesta cidade chamava a atenção, exceto por um fato bastante curioso.

Diferente do resto do mundo, a maioria dos habitantes de Nova Esperança não tinha o hábito de ler jornais ou de assistir à televisão. Viviam alheios às notícias do cotidiano.

As redações de jornais viam-se na iminência de falirem, assim como a indústria televisiva. De que adiantava rodar uma tiragem de milhares de jornais por dia ou produzir caminhões de televisores para um retorno tão mínimo? O prejuízo era notável. Percebendo isso, o prefeito de Nova Esperança resolveu adotar algumas medidas extremas.

Ele estabeleceu que quem comprasse, na cidade, um único jornal, teria direito, gratuitamente, a qualquer tipo de móvel que desejasse, respeitando apenas o limite de um móvel por jornal. Já as pessoas que pagassem por um televisor, em Nova Esperança, seriam gratificadas com uma viagem para qualquer lugar do mundo.

Era um plano arriscado. O prefeito sabia que gastaria muito para financiar a mobília e principalmente as viagens, mas visava impedir a erradicação dos jornais e da televisão em sua cidade. O sacrifício era necessário.

A população reagiu como ele previu. Nos dias seguintes, formaram-se filas nas bancas de jornal e nas lojas. Cada pessoa recebeu seu móvel: camas, guarda-roupas, armários e tudo o mais, dependendo de quantos jornais havia comprado. Os aeroportos já tinham vôos para todos os horários e os aviões tinham suas lotações totalmente preenchidas.

Tudo deu certo. Os meios de comunicação conseguiram evitar a falência, porém aconteceu algo que o prefeito não havia pensado: a cidade ficou praticamente vazia, pois todos tinham viajado. Para evitar que Nova Esperança desaparecesse, o prefeito viu-se diante de um novo problema.

Texto escrito originalmente em 2004, como uma redação do terceiro ano.

Tio Simão

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Tio Simão era um homem de princípios. Morava num sítio distante do movimento urbano, um lugar bucólico e humilde.

Geralmente, vestia-se com roupas desalinhadas, algumas até rasgadas. Seu conjunto mais apurado era uma calça rústica salpicada de listras cinzentas, camisa xadrez quase sempre coberta por um espesso colete de couro e botas de pele de urso. A cabeça de tio Simão sempre vinha adornada pelo velho chapéu de feltro, abaixo deste encontravam-se seus olhos miúdos, ofuscados diariamente pelo sol, e protegidos por óculos ralos de lentes grossas – a miopia de tio Simão era incontestável. Tinha a pele escura como barro, as pernas meio tortas, e os braços pareciam ser maiores que o normal.

Diferente de outros roceiros, tio Simão era educado. Sabia usar as palavras. Era um homem persuasivo. Já lhe havia sido perguntado várias vezes o motivo pelo qual não largava aquela vida ociosa e partia para a cidade. Ele sempre respondia: “Essa é a vida que escolhi para mim, não preciso de mais nada”.

Tinha uma lojinha perto do sítio, onde vendia laticínios. Não era um lugar muito aprazível, mas era a única venda da região. Os clientes sabiam, ele não era de vender fiado. Quem tentasse ficaria cara a cara com o bacamarte de tio Simão.

Um homem de princípios? Talvez nem tanto. Tio Simão detinha muitos defeitos: arrogância, prepotência, egoísmo e às vezes era um pouco soturno. Adjetivos comuns a quase todos que conviviam com ele. O velho Simão, porém, tinha algo que ninguém sonhava ter: bom humor. Sempre enfrentava os problemas de maneira divertida. Piadista como poucos, adorava reunir os amigos numa noitada na varanda do sítio.

Talvez, alguns até quisessem ver tio Simão morto. Estas pessoas, contudo, sabiam que aquele lugar sem ele não seria mais o mesmo.

Texto escrito originalmente em 2004, como uma redação do terceiro ano.

Um novo fluxo

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Olá a todos que aqui chegaram! Esse blog já estava previsto há bastante tempo, mais ou menos na época que criei o Diálogos Visuais, lá em 2009, mas como tudo só acontece no seu devido tempo, aqui está ele, enfim!

Esse espaço será dedicado simplesmente à postagem de alguns de meus textos, minha produção literária, alguns bastante antigos, da época em que despontei o gosto e prazer pela escrita, há cerca de dez anos, até os mais recentes.

Sem mais, vou deixar que esse novo fluxo fale por si só, na figura dos textos que aqui postarei daqui em diante. Sintam-se à vontade para qualquer comentário!