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Deitado na rede, observo a imensidão de telhas acima de mim, um céu de barro que se estende por todos os lados. São muitas, dezenas, centenas, cuidadosamente alinhadas. Começo a pensar que nunca reparei na beleza que há aqui, em como sua geometria, suas curvas, permitem uma disposição tão perfeita, tão simétrica, ao mesmo tempo que somente revestem o teto, algo tão simples.

Sozinhas as telhas são fracas e apáticas. Enfileiradas, contudo, ao longo de caibros e ripas, formam um exército seguro de seu poderio. Silencioso, mas sempre alerta, sempre firme. Cada um destes soldados há de ter uma história, uma vida, até ir parar naquele telhado, onde passará a totalidade de seus dias. Gatos vez ou outra derrubam algum, que encontram seu fim prematuramente. Alguém chora pelos cacos de telha quebrados?

E elas fazem falta. O vazio que deixam permite a entrada da luz indesejada, do brilho contido. Logo substituídas, friamente, sem muito critério, apenas para preencher o lugar da telha desafortunada. São coisas que passam por mim agora durante esse embalar de rede. Sinto-me quase pequeno, intimidado pela imensidão de telhas, mas elas me inspiram, me ajudam a organizar as ideias, através de seus ângulos e sombras, e seu impávido silencio, e como é bom esse silêncio.

 

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Num mar de nostálgicas mágoas, 

o silêncio clamava o amanhecer,

quem sabe quem poderia se conhecer,

inundar-se em todas as águas

 

Os barcos vazios preenchiam o vazio,

dançavam guiados pela doce maré 

Uma última esperança ou fé,

embebida naquele sóbrio anil 

 

E o primeiro encontro de incerteza

Nasce desta moldura doente

Perdida nos braços de vossa alteza 

 

E o último encontro jamais se dá 

Não que não fosse pertinente 

Apenas não sabia dizer vá