Quase não lembrava de lavar os óculos. Nas lentes, trazia a companhia de partículas, digitais e impressões, lhe acompanhando por todo o dia. Participavam de tudo o que via, tudo o que fazia, tudo o que sentia. Eram verdadeiras confidentes. Acostumou-se a elas, àquela presença onipresente, as considerava mesmo companheiras. Eram como uma plateia silenciosa, aquela infinidade de pontinhos, cada um em seu cantinho. Girava a cabeça, eles aplaudiam. Olhava para baixo, eles subiam. A cadência do movimento orquestrado ditava o rumo das estrelinhas, como depois passou a chamá-las. Orgulhava-se, pois, de possuir assim sua própria constelação particular. Ninguém podia vê-la, ninguém podia roubá-la. Era sua eterna morada.

Ranhuras, camadas, sobreposições. O que era aquilo disfarçado de árvore? Perdido ali, onde poucos pareciam ver, achei um labirinto, amontoado de trilhas, de incertezas. O olhar não cabia naquele recorte de profundezas. As marcas, como talhos imprecisos, desafiavam percepções, brincavam com a inocência. De longe não se notava, não se via, desaparecia. De perto, um mundo, fantasia. Como queria ser um daqueles muitos bichinhos que ali percorriam, numa valsa lenta, dona da travessia. Conhecedores verdadeiros, quem sabe com eles aprendesse o que tanta falta me faz.

A bebezinha que ali engatinha não está nem um pouco interessada em Valter Hugo Mãe ou em Adolfo Caminha. Ela quer apenas deslizar pelo aconchego do piso, sentir o friozinho das cerâmicas, amigas verdadeiras. Seu mundinho vai, talvez, bem além de tudo o que todos pensam perceber. É uma infinidade de reflexos que se abrem a sua frente, nos quais ela navega inocente, sorriso que ainda aprende. O piso é amigo, lhe reflete o tudo, as palmas de alegria, o deslumbre. Tudo é pleno. Nada de filas, autógrafos ou correrias. Para a bebezinha, a bienal era somente um deslize.

O saco de lixo não teve um dia fácil. Não dormiu. Não acordou. Não tomou café. Viveu a essência de sua rotina, na mão de muitos lixeiros, entre a imensidão de ruas e canteiros. Mas antes de ter seu fim iminente, que todo saco de lixo nasce conhecendo, se viu diante do que de mais belo poderia ver em sua curta vida: o mar. E dali não quis mais sair.

Inventou de pousar bem na hora da espera do ônibus. Não pediu licença ou permissão, simplesmente instalou-se no tecido áspero da bolsa que eu segurava, e lá permaneceu, contemplativo. Tive receio de tirá-lo de imediato e deixei que explorase a imensidão de seu deserto particular, embora o pequeno não movesse um músculo. Alheio ao trânsito, ao sol, à iminência do ônibus, o inseto só queria ser, só queria viver. Fiquei observando a movimentação esporádica de suas asinhas, como que sentindo as vibrações em volta – e não eram boas. Eu não estava bem. O inseto sabia, claro, senão por que mais estaria ali? Gostaria de ser como ele, que tem o mundo nas mãos, a sabedoria de tudo mas o conhecimento de nada. Quando o ônibus chegou, dei um leve sopro em meu inquilino, que voou pelos ares desaparecendo, encontrando-se à sua própria realidade. Certamente logo arrumará outra sacola para se afixar, amiguinho, pensei, enquanto olhava pela janela, e conseguirá fazer outra alma sorrir.