Inventou de pousar bem na hora da espera do ônibus. Não pediu licença ou permissão, simplesmente instalou-se no tecido áspero da bolsa que eu segurava, e lá permaneceu, contemplativo. Tive receio de tirá-lo de imediato e deixei que explorase a imensidão de seu deserto particular, embora o pequeno não movesse um músculo. Alheio ao trânsito, ao sol, à iminência do ônibus, o inseto só queria ser, só queria viver. Fiquei observando a movimentação esporádica de suas asinhas, como que sentindo as vibrações em volta – e não eram boas. Eu não estava bem. O inseto sabia, claro, senão por que mais estaria ali? Gostaria de ser como ele, que tem o mundo nas mãos, a sabedoria de tudo mas o conhecimento de nada. Quando o ônibus chegou, dei um leve sopro em meu inquilino, que voou pelos ares desaparecendo, encontrando-se à sua própria realidade. Certamente logo arrumará outra sacola para se afixar, amiguinho, pensei, enquanto olhava pela janela, e conseguirá fazer outra alma sorrir.

 

image

Sento para desenhar e observo uma formiga sobre meu balcão. Ela passeia por entre canetas e papéis, com invejável desenvoltura, parecendo conhecê-los melhor do que eu. Observo o movimento ritmado de suas diminutas perninhas caminhando sobre uma caneta, como uma gigantesca ponte, o vacilar oscilante das antenas, à medida que cruza rapidamente a pequena floresta de materiais que há diante de mim. Paro o que estou fazendo, apreciando aqueles breves segundos que antes que percebo chegam ao fim. Já não vejo mais a formiga, sumira por alguma brecha ou vão que provavelmente desconheço. Sorrio, meio que reanimado por uma energia que não saberia dizer de onde vinha, mas que há pouco tinha caminhado pela caneta que agora acabo de empunhar.