Eu, inseto

Inventou de pousar bem na hora da espera do ônibus. Não pediu licença ou permissão, simplesmente instalou-se no tecido áspero da bolsa que eu segurava, e lá permaneceu, contemplativo. Tive receio de tirá-lo de imediato e deixei que explorase a imensidão de seu deserto particular, embora o pequeno não movesse um músculo. Alheio ao trânsito, ao sol, à iminência do ônibus, o inseto só queria ser, só queria viver. Fiquei observando a movimentação esporádica de suas asinhas, como que sentindo as vibrações em volta – e não eram boas. Eu não estava bem. O inseto sabia, claro, senão por que mais estaria ali? Gostaria de ser como ele, que tem o mundo nas mãos, a sabedoria de tudo mas o conhecimento de nada. Quando o ônibus chegou, dei um leve sopro em meu inquilino, que voou pelos ares desaparecendo, encontrando-se à sua própria realidade. Certamente logo arrumará outra sacola para se afixar, amiguinho, pensei, enquanto olhava pela janela, e conseguirá fazer outra alma sorrir.

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